“e aí, estuprou ou não?”
Essa é a pergunta que eu mais escutei nos últimos dias, de todo tipo de pessoa, das mais próximas às mais desconhecidas. Tudo porque sou uma das pessoas destacadas na minha equipe para trabalhar na cobertura do Big Brother Brasil 12. Sim, sempre acompanhei o programa, mas meio por cima, pela internet e da metade para o final. De qualquer forma, não foi uma tarefa recebida como um castigo, mas como um desafio e até mesmo uma diversão. E tem sido muito recompensador, profissionalmente. Um grande aprendizado. Sério.
Porém, no meio disso tudo, quem iria supor que eu teria de lidar com uma pergunta tão escabrosa como “estuprou ou não?” e que, pior, é feita em tom de brincadeira?
Lembrei de quando estava estagiando ainda, cobrindo a Volvo Ocean Race 2005-2006, e um dos competidores morreu a bordo. Foi chocante, fiquei sem saber o que pensar direito. Mexeu comigo e por dois motivos. Foi a primeira vez que tive de noticiar a morte de alguém, o que pesou sim, mas não tanto quanto o fato de estar há meses acompanhando as aventuras daqueles caras dentro de seus barcos ao redor do mundo. De certo modo, eles acabaram se tornando próximos, parte da minha vida mesmo, e isso só piorava. Chorei um pouquinho, confesso.
É mais ou menos assim que a gente se sente falando dos “brothers”. Porque, ok, só tem uma semana de programa. Mas eu vejo os caras acordando, almoçando, brigando, se conhecendo, chorando de saudades da família, contando segredos… A gente acaba se identificando e criando um certo carinho por eles. Faz parte! Cada um deles é cativante a sua maneira. Tinha (e tem) aquilo que eu gostava e não gostava, tanto no Daniel, como na Monique, como em todos os outros catorze selecionados. Não tem essa coisa de mocinha e bandido. São pessoas normais, gente como a gente, como a gente encontra em qualquer lugar. No trabalho, na faculdade, na balada… Qualquer lugar mesmo. Imaginar que uma delas possa ter cometido um crime tão covarde é de revirar o estômago.
Não cabe a mim, nem à imprensa, fazer julgamentos. O público que assiste ao programa é quem denunciou o fato (e não a Monique). A imprensa reportou. A polícia avaliou e tomou as medidas que julgou cabíveis. Tanto que é o poder público quem está denunciando Daniel (e não a Monique). Para os desavisados, que acham que ela está tentando tirar proveito do cara, ou se fazer de santinha, saibam que não, pelo contrário. Ela não fez queixa alguma, apenas prestou esclarecimentos. Monique narrou, diversas vezes, por três dias seguidos, tudo o que lembrava e afirmou que esses atos de que ela se lembra foram realizados com seu aval. “Só se ele foi muito cafajeste de fazer alguma coisa comigo dormindo”, ela disse.
Depois de horas de depoimentos e tendo as fitas com as gravações do programa em mãos, o poder público decidiu dar prosseguimento à investigação, independentemente de Monique denunciar ou não Daniel (sim, nesse caso, a lei permite). A questão aqui é justamente o que ela não lembra, mas as câmeras flagraram. “E aí, estuprou mesmo?”, me perguntam. De novo, não cabe a mim julgar. Não sou eu, seja como público, seja como “imprensa” (as aspas aqui porque não me considero jornalista), quem tem que decidir sobre isso. Então, sério, me recuso a responder essa pergunta. Especialmente se ela vem em tom de gozação. Não tem nada de engraçado nessa história, tenha ela o desfecho que tiver.
Relatar uma morte trágica em alto mar é tão triste quanto noticiar uma suspeita de estupro. O segundo caso, talvez, seja ainda pior porque traz à tona uma série de comentários dispensáveis e carregados de machismo. Estupro, abuso sexual, bolinação, qualquer nome que você queira dar, não é piada. A grande questão, aqui, é que relatos similares ao do BBB são terrivelmente comuns. Toda mulher tem uma história de horror pra contar. Toda mulher que toma sua bebida de vez em quando sabe o que é ter alguém tentando tirar proveito da sua embriaguez. Toda mulher que já passou da conta e ficou de porre acordou se perguntando “tá tudo bem comigo mesmo?”. Porque a gente sabe que, se estiver vulnerável, pode se tornar vítima de algum abuso. E de quem é a culpa? De quem abusa, não de quem é abusado. Sempre.
Se Daniel tirou proveito da situação de Monique, ou não, o processo está aí para investigar. Só espero que esse bafafá todo sirva para abrir a cabeça de algumas pessoas para o que é ético, para o que é correto. Transar com uma menina porque ela está bêbada não é genial, como riem alguns. É criminoso. Só isso.
Pra quem acha toda essa polêmica idiota, recomendo ler este post. “Discutir o que ocorreu no programa não é apenas discutir o que ocorreu no programa”, ok? E pra quem acha que “mulher tem que se dar ao respeito”, recomendo ler esta matéria da revista TPM.
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