26 de October de 2010

“três solos e um dueto” com baryshnikov e ana laguna

Atualizado por Juliana às 21:03 | 4 comentários

Lamentei ser tarde demais quando soube que o Baryshnikov se apresentaria em São Paulo. Os ingressos estavam completamente esgotados para as duas apresentações! Imaginem só como fiquei quando, na véspera da segunda apresentação, recebi um convite da assessoria de imprensa responsável pela divulgação de “Três solos e um dueto” (cortesia do Iguatemi e da Oi)! Na hora liguei para a minha fiel escudeira para assuntos de dança e teatro, a Marília, e no dia seguinte estávamos saltitantes no Teatro Alfa. De quebra, ainda encontrei com a Isabelle lá, queridíssima! :)

Baryshnikov é sinônimo de ballet, e de um ballet de qualidade praticamente incontestável. Sabia que não veria aquele mesmo Baryshnikov idealizado em algum lugar profundo do meu inconsciente… Afinal, hoje ele tem 62 anos! Apesar disso, ou até por isso, a ansiedade era imensa.

Logo na primeira coreografia, um dos três solos, fomos informados que o tema de “Valse Fantasie” foi composto pelo russo Mikhail Glinka quando ele se apaixonou por uma jovem da alta sociedade. As circunstâncias os afastaram e, anos depois, quando ele a reencontrou, se deu conta de que ela não era “tudo aquilo”. Quem não se identifica com uma história dessas, não é mesmo? Mais vida real, impossível!

Mischa (sou íntima, rs) executou uma coreografia que mesclava ballet contemporâneo com mímica. Em alguns momentos, era inevitável rir. Sim, rir da grande lenda da dança! Fiquei um pouco constrangida, confesso. Parecia uma heresia! Mas, ao final do espetáculo, me dei conta que era essa a intenção de Baryshnikov. Ele não parece se levar tão a sério, tampouco se considerar acima dos demais.

O que ficou ainda mais claro no terceiro solo da noite, “Years Later”, de longe meu favorito. A mistura das projeções em vídeo e o perfeito encaixe delas com a coreografia e os jogos de sombra da iluminação me encantaram. Mischa dança ao lado de uma projeção de si mesmo mais jovem. Enquanto o Baryshnikov de vinte e poucos anos do telão executa uma sequência de saltos que fez a Marília até soltar um suspiro (ela faz ballet clássico e sabe como aquilo é dificílimo!), o Baryshnikov de sessenta anos tentava acompanhar. Então ele parava, olhava para a tela e em seguida lançava um olhar de confidência para o público como quem diz “Nem eu sei como fazia isso!”. Um dos momentos mais divertidos foi quando o bailarino do vídeo começou uma série de piruetas infinitas (editadas, é claro, e de um jeito bem mambembe para ficar ainda mais cômico). Sim, era a resposta dele ao comentário de todos ali: não dá exigir aos sessenta a performance dos vinte.

“Solo for Two”, o segundo solo da noite, foi interpretado por Ana Laguna, uma bailarina espanhola de 54 anos. A coreografia foi criada por seu marido, o sueco Mats Ek, e também fala muito sobre envelhecimento. É uma reflexão sobre a condição da própria artista, os diversos momentos da vida de um ser humano, as dores, as alegrias, as desilusões… Na hora comecei a pensar sobre tanta coisa, e olha que detesto esse lance meio intelectualoide de “vamos interpretar tudo e trazer um significado über poético para mostrar como somos inteligentes e blá-blá-blá”, até fiquei meio irritada comigo mesma por dar essa viajada. Mas a verdade é que todo mundo percebeu claramente que era isso. Depois, lendo as declarações de Baryshnikov na entrevista coletiva antes do evento, vi que ele disse: “Não estamos fazendo nenhum papel, não temos mais idade para isso”. De fato, eram coreografias intimistas, reveladoras, eram eles mesmos ali no palco.

Após o intervalo, veio o dueto. Mischa e Ana interpretaram outra coreografia de Ek, “Place”, que dura impressionantes 22 minutos! Os bailarinos interagiam com o cenário (um tapete e uma mesa) e mais uma vez percebi o tema do envelhecimento. De um lado, eu, com 25 anos, fiquei um pouco triste, como a gente fica quando lembra que vai envelhecer um dia e talvez não esteja aproveitando ao máximo a juventude. De outro, fiquei reconfortada, porque os dois mostram que envelhecer não é tão ruim assim… Pode exigir adaptações devido às limitações naturais do corpo, mas o amadurecimento também tem suas vantagens, especialmente maior controle de si mesmo e maior confiança em si mesmo!

Baryshnikov continua dominando o palco, apresentando coreografias de tirar o fôlego e seduzindo muitíssimo. Um privilégio!

4 comentários

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  1. Edu Oct 31, 2010

    Muito legal seu texto. Vi o espetáculo hoje aqui no Rio de Janeiro.

  2. Isabelle Ferreira Nov 01, 2010

    Eu já tinha visto/lido, sabe-se lá onde…rs, sobre o “Years Later”. Lembro de ter adorado a ideia do solo, mas nunca imaginei que conseguiria ver ao vivo a apresentação desse solo. Na verdade, nunca pensei em ver o Misha ao vivo. Foi um privilégio mesmo ver esse grande bailarino em ação.

  3. Amanda Nov 02, 2010

    Esse cara é maravilhoso e a proposta desse ballet é fantástica!!! Não consegui comprar ingressos, então a leitura do seu post valeu-me pelo menos para confirmar que seria um sucesso. Um beijo!

  4. Mhilka Diniz Nov 08, 2010

    Caramba, parece ser bom mesmo heim??
    Nunca tive a oportunidade de ver.. mas amei a dica.

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