sentimento de culpa
O pior sentimento de culpa que tive na vida não foi por discutir com alguém e dizer barbaridades, ou por aceitar um troco errado, ou qualquer coisa do tipo. Foi por participar de uma rifa.
Tinha uns 10 anos. Uma menina da escola veio me oferecer uma rifa que ela estava vendendo no intervalo. O presente era um bicho de pelúcia gigante. Naquela idade, um bicho de pelúcia gigante era um sonho dourado que eu sabia que jamais realizaria pelas vias tradicionais (ou seja, pedindo para os meus pais). Parecia bastante atraente e perguntei quanto era o número.
Ela logo se animou (precisava vender os números, afinal) e começou a me explicar como funcionava: eu escolhia um nome de mulher e aí raspava o quadradinho embaixo para saber quanto deveria pagar, entre zero e R$ 2,50.
Resolvi arriscar. Acreditava que tinha boas chances de participar da brincadeira sem gastar um centavinho. Escolhi Isabel, que era o nome de uma das meninas da sala com quem mais conversava na época. Ela raspou o número.
- Dois e cinquenta.
- Ahn?
- Você precisa me pagar dois e cinquenta.
Não é que eu não tivesse o dinheiro, até tinha. Mas, naquela época, com um real eu conseguia comprar um salgado e um copinho de refrigerante pequeno na cantina. Dois e cinquenta era uma quantia que levaria um tempão para conseguir de novo. Mas não tinha jeito. O número estava raspado, claramente marcando os dois e cinquenta, e eu entreguei minhas moedas para a garota.
No final da tarde, depois da aula, fui para a casa da minha avó. Passava um episódio das Doze Casas dos Cavaleiros do Zodíaco, meu desenho favorito. No intervalo, alguma editora de quadrinhos repetia seu comercial religiosamente. E eu me remoía por ter gasto meu dinheiro com “besteira”. Ponderava se contaria para minha mãe o que tinha feito e tremia de pensar na bronca que ela me daria por ter desperdiçado o dinheiro do lanche (que era raro, já que normalmente eu levava a comida de casa, para economizar) em um rifa idiota.
Todos os dias eu assisita aos Cavaleiros do Zodíaco. Todos os dias, passava o mesmo comercial no intervalo. Toda vez que eu via aquele comercial, começava a me sentir mal.
Foram semanas nessa tortura: eu totalmente arrependida de ter comprado o número e morrendo de medo que minha mãe descobrisse. Até que a garota ligou em casa, feliz da vida.
Sim, eu ganhei a rifa.
No dia seguinte, meu pai voltou para casa com um enorme leão de pelúcia no banco de trás do carro, que ele logo apelidou de Simba. Meu irmão, que tinha um ano na época, o adotou como brinquedo favorito e adorava ficar montado em cima do felino como se ele fosse um cavalinho.
Mesmo assim, por muito tempo (anos depois), sempre que assistia àquele comercial, sentia meu estômago revirar e a culpa subir pela garganta…
4 comentários




4 comentários | Adicione o seu »
eu tb amava cavaleiros do zodíaco e comprava várias dessas revistinhas que eles faziam propaganda. haha.
mas ainda bem q vc ganhou a rifa, né? imagina ficar sentindo culpa por uma coisa q não deu em nada? haha
Ai guria, eu uma vez levei minhas etiquetas decoradas que minha tia tinha feito no computador (coisa chique de empresa) pra escola e acabei perdendo elas.
Fiquei dias pensando como ia contar pra minha mãe hehehe
Porque ela ia falar que eu num tinha nada que ter levado elas =S
A a culpa, é tão engraçada depois que passa.
adorei o post!!!! uma vez ganhei uma rifa de um ovo de pascoa, devia ter uns 9 anos e a menina nunca me deu o ovo : (
Ai, judiação! E sacanagem da menina que não te deu seu prêmio, né?