Deu para perceber, pelos meus post e twitadas, que na virada de quinta para sexta eu sofri muito e por uma simples razão: aquilo que os budistas chamam de “apego”. (Acho que outras religiões partilham de um conceito semelhante.)
Aquela tristeza imensa, de ter algo arrancado de dentro de mim, me tomou com uma força avassaladora e demorou um pouco até para me dar conta do que se tratava, no turbilhão de pensamentos e sentimentos que me tomaram. Pouco depois compreendi que todo o problema vinha de um apego imenso que tive com algo material que nem mesmo cheguei a possuir. Sim, perdi algo que não tive! E sequer me dei conta do quanto estava apegada a tudo isso…
A maioria das perturbações da vida são causadas pelo apego. Ficamos aborrecidos, preocupamo-nos; tornamo-nos avarentos, queixamos ignorantemente e temos toda sorte de complexos. Todas estas causas de infelicidade, tensão, teimosia, tristeza são devido ao apego. Se você tem qualquer problema ou preocupação, investigue-se, e descobrirá que a causa é o apego. – Rev. Gyomay M. Kubose
No fundo, eu até tinha vergonha desse sentimento, desse sofrimento, e
fui fazendo uma análise lenta de todas as sensações, revendo o momento,
até entender que estava apegada. E consegui me libertar: voltei a centrar meus esforços no processo e não nos resultados.
Desejo
é um dispêndio de energia dirigido para fora de nós. São como âncoras
jogadas em areia movediça ou num mar tempestuoso, de modo que nunca se
estabilizam. Porque o mundo é impermanente, inconstante, em eterna
mudança a cada instante; e o desejo gera o apego. O turbilhão do mundo
torna-se mais forte, e arrasta nossas âncoras. O apego, por sua vez
torna-se mais forte, procurando manter as coisas, que fogem … Surge o
conflito.
A impermanência ou mutabilidade do mundo não são sozinhas as causadoras
do sofrimento. Nós sofremos porque ainda realmente não enxergamos como
as coisas no mundo são mutáveis e, na presunção de que tudo aparenta
ser eterno, não damos a devida consideração à extensão (consequências)
de nossos atos. Desse jeito, agimos na ignorância, e desejamos de
qualquer maneira a constância e permanência de coisas e pessoas. Como
coisas finitas podem ser fonte de perene e eterna felicidade?
O
que é a maior lição de vida para mim, que adoro ter controle de tudo,
resolver tudo… Eu até falei com minha prima (e outras pessoas,
provavelmente) que ali, no calor da emoção, o que mais me doía é que
não podia fazer nada, absolutamente nada, apenas contar com a
sorte, o destino, seja lá o que for… Não podia interferir na
situação. Estava presa a todo um planejamento meticulosamente calculado
- e não aceitei as mudanças. Mas o “Universo” (seja lá o nome que você
dá para isso) é bem maior que nossa vontade, não é? Lógico que virou
frustação – e das bravas!
A solução que encontrei é simples,
até. Pensei comigo: se buscar agir bem ao longo do caminho é certo que
no final serei recompensada, especialmente por desenvolver minhas
capacidades (físicas, morais, éticas, espirituais…). Por viver um dia
de cada vez! Agora, se só pensar na recompensa lá no final, vou me
frustar, ficar ansiosa e desanimar diante das dificuldades.
Me
desapontei um pouco com minha reação porque acreditava mesmo estar mais
“evoluída” espiritualmente, mas fico feliz por ter conseguido resolver
esse conflito comigo mesma, sabe? Afinal, eu realmente almejo ser uma
pessoa melhor, todos os dias. Para mim, cometi um deslize imenso na
semana passada, mas estou tentando usar isso como aprendizado, de
verdade.
Não sigo uma religião específicia, pelo contrário, pratico o mais
absoluto sincretismo de crenças e filosofias, com algumas “simpatias” e
superstições até. Por fim, quero deixar mais uma citação que resume o que eu acredito:
Espiritualidade não é acender velas, incenso, ou qualquer
outra demonstração externa de religiosidade. Espiritualidade
não é acreditar em santos, fazer promessas, ou pedir a intervenção
divina com orações egoístas. Espiritualidade é
cuidar de se conhecer cada vez melhor, extirpando as sementes de egoísmo,
raiva, ódio, ilusão e auto-conceito; dedicando esta melhora
própria ao bem-estar de todos os seres, sejam humanos ou não,
vivos ou não. Não é tarefa fácil, pois o peso
de milhares de vidas dedicadas na direção oposta é
muito real, mas não há trabalho maior para o ser humano,
enquanto ser realmente HUMANO.
E bola pra frente! :D
Todas as citações desse post foram retiradas de um artigo de Carlos Lessa para o Centro de Estudos do Budismo.
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