costume

Eu já me acostumei com ele ali, sabe? Não sei o que é entrar no ônibus e não ver a silhueta dele lá no fundo, tudo meio escuro, ele arrumando as cobertas para eu poder me cobrir e ficar bem quentinha até chegar no trabalho. Também não me lembro mais como é pegar o ônibus na volta e não vê-lo jogando cartas, dando risada, mandando beijos de longe, estendendo a mão para eu me aproximar.

É tudo meio piegas, mas eu acho que a hora que mais vou sentir falta vai ser quando entrar no fretado e não achar meu namorado ali. Porque mesmo quando ele não era meu namorado, ele estava ali. Nosso ônibus era outro, ninguém jogava truco porque não tinha a famosa mesinha e passávamos o tempo da viagem batendo papo e contando piadas. Foi assim que a gente começou a conversar, todos os dias, sobre as mais diversas coisas. Eu flagrava, vez ou outra, aquele olhar distante de quem se pergunta "e se...". Será que eu também já lançava olhares de "e se ele fosse mais do que um amigo"? É provável, devo ter começado a pensar nisso muito antes de assumir para mim mesma.

Ontem ele precisou ficar em São Paulo por qualquer razão e eu, normalmente, nem me importaria. Mas agora eu sei que tem prazo para acabar essa pequena alegria de todos os dias, então sinto uma falta enorme. Talvez até maior do que quando faltar de fato. É como se eu não estivesse aproveitando o último olhar, o último abraço entre poltronas, a última vez que ele vai levar um refrigerante diet para mim porque ele sabe que no meu ponto não tem onde eu possa comprar.

Quando eu me atrasar, não sei mais para quem vou ligar pedindo para segurar o ônibus "só um minutinho que já estou subindo a rua". Nem sei para quem vou ligar perguntando se "já está na Faria Lima", porque estou cansada e quero ir para casa logo. Nem vai ter graça acordar às cinco da manhã. Aliás, agora é que não vai ter graça mesmo.

Eu sei, é absolutamente piegas, mas sempre me animava acordar sabendo que em breve eu iria dormir no ombro dele e depois sentir o cheiro da colônia que ele usa nos meus cabelos até umas dez horas da manhã. Era absolutamente gratificante sentir a mão dele segurando a minha todo o caminho e, ainda dormindo, ele me segurar para eu sempre cochicar em seu ouvido que já tinha chegado em meu ponto, dar-lhe um beijo na testa e ajeitar suas cobertas antes de descer. Tudo é muito cafona, beira o ridículo, mas assim são as pequenas coisas que demonstram meus sentimentos.

Enquanto ele se prepara para mudar para São Paulo, não nego que fico feliz, todos sabem que sim, mas também fico com aquela sensação de vazio sempre que imagino como será quando ele não estiver mais ali. E conto os dias, mesmo sem saber, ao certo, quantos dias me restam... Vivendo um "E estando, me faltas", dos versos belíssimos de Neide Archanjo.

(Eu prometi avisar quando acontecesse.)

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5 comentários

Aiii Ju, que post triste!
Mas veja por outro lado, vc pode dormir na casa dele!
Bjo

Eu já me senti assim, não no ônibus, mas porque eu trabalhava a 10 passos da casa do meu namorado, então eu almoçava com ele todo dia e saia do trabalho direto pra casa dele. Aí ele mudou pra Sampa e fez TANTA falta. Eu não gostava mais nem de ir lá e ver o quarto dele vazio e tudo mais =/
Mas tem o lado bom de que quando for matar as saudades é muito muito bom =)

Nhóóóóó! É triste, mas como tudo na vida, tem seu lado bom: agora vc pode paquerar os outros! Brincadeiraaaaaaaaaa!

Bjsssssss

viver longe assim eu nao consigo mais, é muito ruim =(


te indiquei um meme de 6 coisa aleatórias no blog =D

Te entendo totalmente, Jú. Vinha para o trabalho todo dia com o meu namorado, aí ele mudou de horário e agora só o vejo no final de semana.
Mas ó.. o lado bom é que quando vcs se verem, vai ser ainda mais gostoso pq vai ter aquele lance de aproveitar bem o tempo q têm juntos. ;)

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Juliana Vargas Ferreira...

Também conhecida como Ju Mary. 24 anos, São Paulo. Produtora Editorial. Cinema, música, teatro, dança, artes plásticas, literatura, gastronomia, moda, consumo, futilidades, eu, você, o mundo. De tudo um pouco....
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